Início de ano… Acredito que você já deva ter pensado em pelo menos uma coisinha para mudar ou fazer diferente em 2026. As primeiras semanas são a época oficial das metas, das decisões estratégicas e, claro, do planejamento de conteúdo. Maaas, antes de sair produzindo um calendário, fechando parcerias ou escolhendo influenciadores, existe um passo anterior e crucial: entender as tendências que vão guiar a comunicação nos próximos meses. Não para segui-las cegamente, mas para saber onde investir energia, verba e criatividade — o que é especialmente importante em nosso tempo, em que as mudanças vêm e vão na velocidade da luz e influenciam nossa forma de criar, distribuir, consumir e medir comunicação.
A seguir, reunimos algumas das principais tendências que já estão moldando a produção de conteúdo e que podem entrar no seu radar.
Comportamento: os 4S
Um bom ponto de partida para o planejamento de conteúdo é pensar: como as pessoas estão consumindo? A pesquisa de 2025 do Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), do IBGE, apontou que 98,8% dos brasileiros acessam a internet pelo celular, e um dos principais objetivos desse uso é assistir a vídeos. Esse cenário ajuda a explicar um comportamento cada vez mais consolidado nas plataformas digitais, os 4S: scrolling, streaming, searching e shopping. Eles descrevem a jornada de atenção e consumo nas redes, que tem se tornado cada vez mais não linear e multicanal.
Tudo começa no scrolling, a rolagem contínua de feeds em plataformas como Instagram, TikTok e companhia. Quando algo desperta interesse, o usuário pausa o scroll e entra em modo streaming, dedicando mais tempo a um vídeo ou publicação. Em seguida, avança para o searching (aliás, as redes sociais já são, para a geração Z, um dos principais caminhos de busca). E para fechar, a jornada ainda pode avançar para o shopping, uma compra dentro ou a partir das plataformas.
Mais do que uma tendência de formato, os 4S revelam uma mudança estrutural de comportamento nas redes, sendo confirmada em nosso país pela plataforma de gerenciamento de redes sociais, mLabs, e lá fora, pela Boston Consulting Group (BCG), uma das consultorias estratégicas mais expoentes do globo. Resumindo, ignorar os 4S é planejar conteúdo fora da lógica de consumo das pessoas.

Quanto tempo você passa rolando o feed por dia? — Foto: Bring
Motivações: válvula de escape ou autocuidado?
Se o comportamento é esse trajeto de quatro paradas percorrido pela atenção das pessoas, as motivações explicam o porquê elas se movem. Os temas mais procurados, as estéticas aclamadas e as narrativas preferidas entram aqui. Entre as 12 tendências para 2026 apontadas pela Worth Global Style Network (WGSN), líder no segmento de inteligência e mudanças de mercado, três revelam um eixo cultural que merece sua atenção: fim da seriedade, culto à fofura e privilégio digital.
Todas partem de um mesmo lugar: a busca por alívio emocional num tempo marcado por trocentos estímulos, atenção fragmentada e fadiga digital. Por isso, o desejo pelo que é fácil de consumir, divertido e acolhedor tende a ser valorizado. Essa necessidade por pequenos momentos de prazer no meio de uma rotina cansativa cunhou os termos: microalegrias e treatonomics (algo como economia dos mimos, pequenos luxos). Por esse motivo, se desconectar do celular e se proteger da sobrecarga de informação passou a ser considerado como um luxo moderno, e as formas de fazer isso são infinitas: viajando, se exercitando, praticando hobbies, experiências analógicas e, até mesmo, produtos que tragam conforto.
Sendo assim, o entretenimento que é voltado ao que é agradável, lúdico, espontâneo e kawaii também acaba ganhando destaque. Vejamos alguns exemplos… A estética amigável e o ritmo calmo da série A Concierge Pokémon (2023), da Netflix, é exatamente assim. Uma história relaxante com os personagens que já conhecemos, dessa vez em stop-motion. Fofo! Pensando em roteiro e tom suaves feito nuvem, temos a série de comédia Ted Lasso (2020), da Apple TV, que trata bem mais do que futebol num tom pra lá de good vibes.
Na prática (e, se você acompanha os demais posts no blog, não há nada de novo debaixo do sol), as pessoas desejam mais leveza e conexão. Ou seja, apostar em conteúdo que respeita o cansaço, o humor e o tempo das pessoas precisa fazer parte da sua visão em 2026.
Profundidade (para os curiosos)
O intuito aqui não é esgotar o assunto, mas te instigar à pesquisa. Caso queira ir a fundo nas demais tendências de mercado apontadas pela pesquisa da WGSN, elas foram: curadoria para poucos; falsozempic (produtos de beleza que replicam a promessa dos medicamentos GLP-1, com definição corporal e perda de peso); coisas pequeninas, alegria máxima; design protetor; PDRN (sérum de sêmen de salmão usado no skincare); apostando no ouro e luxo rústico.
Especialistas da empresa ainda discorreram sobre: hiperlocalidade, apelo sensorial, marketing esportivo (aliás, a Kantar apontou marketing inclusivo também) e design sob demanda. Algum desses temas impactam o seu planejamento de conteúdo? Veja um pouco mais no vídeo:
“O que mais me chama a atenção é a convivência geracional, já que atualmente seis gerações estão coexistindo”, diz uma das especialistas da empresa — Fonte: Reprodução Instagram
Um fato muito curioso é que a escolha para a cor do ano de 2026 é justificada por essas mesmas motivações: a busca pelo equilíbrio emocional, por conforto, pausa e tranquilidade. A PANTONE 11-4201, ou apenas, Cloud Dancer (dançarino das nuvens), é um tom de branco “ondulante, impregnado de serenidade, que convida ao verdadeiro relaxamento e foco, permitindo que a mente vagueie e a criatividade respire”, diz a líder global em sistema de cores.
Criação: máquinas aceleram, humanos pedem conexão…
O que na moda é styling e roupa, no conteúdo é criação e formato. A competição nas redes sociais está cada vez mais acirrada… Surpreendente, não? rs Podemos atribuir essa competitividade a certos movimentos: YouTube, Instagram e Facebook passaram a traduzir títulos e descrições automaticamente e a habilitar dublagem automática. O que antes era conteúdo BR competindo com BR, agora é o nosso conteúdo vs do mundo todo.
E essa automatização não se limita ao áudio. O volume de conteúdos curtos e rasos produzidos por inteligência artificial também cresce exponencialmente (e essa tendência não está só na publicidade, mas em todo o mundo corporativo, como copiloto ou operador fundamental para mil e uma coisas). GPT, Gemini, Stitch, Midjourney, VEO 3, Pictory, Perplexity, Mistral, Grok, Copilot, DeepSeek, Claude… Liste aqui as ferramentas de IA que você lembrou: ______________________________________________________________________.
De acordo com o IAB quase 90% dos anunciantes usarão IA de última geração para criar anúncios em vídeo — Vídeo: Reprodução YouTube
Ao mesmo tempo, surge um movimento (olha só…) de desintoxicação dessa pressa por resultados e falta de personalidade, dessa vez por parte das marcas: o chamado unshitfication. Pensando no planejamento de conteúdo e na execução, isso significa algumas mudanças simples, mas poderosas na forma de se comunicar, como reduzir ruído, evitar repetir a mesma mensagem, falar de forma direta sem aquele excesso de promoção e entregar conteúdos que informem, contextualizem e eduquem. E, claro, só prometer o que a marca consegue cumprir de verdade.
Ainda nesse cenário desacelerado, conteúdos de tempo médio, ou seja, dois minutos ou mais, tendem a performar melhor no TikTok, Instagram ou LinkedIn. No Instagram, por exemplo, conteúdos densos como os carrosséis seguem como formato estratégico, sendo importante junto aos Reels. O ponto em comum entre isso tudo? O storytelling e a narrativa autêntica, capazes de gerar conexão, que continuam mais fortes do que nunca. Essas e mais análises para redes sociais em 2026 foram pontuadas pela mLabs.
Gente que cria e inspira
No TikTok, por exemplo, microcomunidades como CleanTok, BookTok, PlantTok, StudyTok e PetTok conectam pessoas que compartilham paixões e dicas do dia a dia — Vídeo: Reprodução TikTok
Uma das grandes sacadas para o seu planejamento de conteúdo pode estar aqui, espia só! O pertencimento que as pessoas têm tanto almejado aparece nas microcomunidades, uma das dez tendências apontadas pela Kantar para 2026. Ela aparece nos funcionários (EGC) e clientes que criam conteúdo, nos empreendedores que se tornam influenciadores de suas próprias marcas e na preferência por conteúdos feitos com criadores digitais. Longe das vitrines, aqui a lógica é a de uma conversa genuína. Menos feed-centric, mais community-centric.
E não é só teoria: a Kantar aponta que 61% dos profissionais de marketing planejam aumentar o investimento em criadores de conteúdo em 2026.
Mídia: nada preto no branco
Não basta falar de conteúdo se não soubermos onde colocá-lo. Sim, já falamos do celular e das plataformas de scrolling, mas o debate sobre mídia vai além disso. Um levantamento do Ad Age ouviu lideranças globais de investimento homenageadas no 2025 Media Buying Power List. Os executivos apontaram um consenso importante: busca, social, áudio, creators, live, IA e experiências interativas deixaram de operar como canais independentes.
Fato é que no planejamento de conteúdo não existe receita única. Em 2026, as frentes de distribuição passam a se sobrepor de forma estrutural, da descoberta de produtos até a decisão de compra. A busca, por exemplo, já acontece dentro das redes sociais (como falamos no tópico dos 4S), em ecossistemas de varejo e em ambientes de IA generativa. O áudio se expande para experiências de conversa e compra; e o social incorpora comércio, entretenimento e influência em tempo real.
Esse cruzamento não é apenas tecnológico, ele redefine onde o investimento em mídia faz sentido. Executivos ouvidos pelo Ad Age destacam a crescente busca pelas IAs, do social commerce, do live shopping e da integração entre esportes (isso cruza com o que a WGSN disse, hein?), creators e interatividade como movimentos concretos de redistribuição de verba.
Ao mesmo tempo, o áudio vive um novo ciclo, apoiado por plataformas como YouTube, Amazon e Netflix, enquanto a mídia interativa e imersiva ganha espaço como forma de gerar envolvimento. Planejar mídia hoje significa entender esse ecossistema híbrido. No Brasil, esse movimento já está visível. Uma análise do CENP (2025) mostra TV e digital (com destaque para display, social e vídeo) caminhando praticamente lado a lado, enquanto OOH cresce de forma complementar. No fim, o ponto deixa de ser “onde anunciar” e passa a ser como integrar canais para acompanhar uma jornada cada vez menos linear.
Vale lembrar
Planejamento de conteúdo vai muito além do que tá no hype. Em 2026, é pensar na pessoa por trás da tela: respeitar o cansaço, oferecer pequenas alegrias e criar experiências que conectem. Dados e tendências ajudam a direcionar, mas o impacto vem de narrativas autênticas e múltiplos canais que conversam de verdade com quem consome. Entendeu o que as pessoas querem ouvir? Então, é só compor a música. Será que dá hit?