Jingles publicitários: eles (ainda) fazem história

O tempo passa, o tempo voa… e alguns jingles publicitários não saem da nossa memória. Pois é, essa é justamente a ideia de um jingle: grudar como um chiclete para reforçar uma marca, um produto, uma ideia. Você com certeza se lembra de alguma propaganda de uma, duas, três décadas atrás com uma musiquinha que você sabe de cor até hoje. As marcas sabem muito bem disso, portanto, sempre que encontram uma oportunidade, recorrem a essa poderosa ferramenta.

Há quase cem anos 

Aqueles considerados os primeiros jingles brasileiros datam da década de 1930. Em 1932, Antônio Nássara criou um jingle para a Padaria Bragança. Pouco depois, em 1935, foi a vez de Ary Barroso e Bastos Tigre comporem o jingle para a Brahma Chopp.

Um fato interessante é que os nomes por trás desses jingles foram figuras proeminentes em suas áreas. Antônio Nássara, por exemplo, viria a compor poucos anos depois a famosa marchinha “Allah-lá-ô”, junto a Haroldo Lobo. Já Ary Barroso é o homem por trás de “Aquarela do Brasil” e o primeiro brasileiro com uma indicação ao Oscar (como Melhor Canção Original por “Rio de Janeiro”, do filme Brazil, de 1944). Bastos Tigre, por sua vez, foi responsável por cunhar o slogan “Se é Bayer, é bom”. Ou seja, os caras sabiam o que estavam fazendo.

Vota em mim 

Outro grupo que se apropriou com maestria dos jingles publicitários foram os políticos. Se você já ouviu a expressão “Varre, varre, vassourinha”, você sabe do que eu estou falando. (Se não ouviu, segue a leitura.) Esse era o mote do jingle usado por Jânio Quadros, candidato à presidência do Brasil em 1960 que iria “varrer a bandalheira”. Composto por Maugeri Neto e Fernando Azevedo de Almeida, o jingle ainda foi reciclado mais de 20 anos depois para a campanha de Jânio ao governo de São Paulo, em 1982. E está na cabeça do povo (sobretudo dos mais velhos) até hoje.

Se você já ouviu a expressão “Lula lá”, isso também é culpa de um jingle. Chamado oficialmente de “Sem medo de ser feliz”, o jingle foi criado por Hilton Acioli para o segundo turno das eleições presidenciais de 1989 — as primeiras eleições diretas do Brasil. A campanha foi tão marcante que uma nova versão desse jingle foi lançada 33 anos depois, para a campanha presidencial de Lula em 2022.

Além disso, a eleição presidencial de 1989 teve o famoso “dois patinhos na lagoa, vote Afif 22” e até mesmo um jingle para Silvio Santos, que teve sua candidatura barrada pelo TSE pouco após o início da campanha. (Bateu uma curiosidade? Dá pra ouvir os jingles de todos os candidatos aqui.)

Quem bate? É o frio.

Em 1962, Heitor Carillo criou para as Casas Pernambucanas um daqueles jingles publicitários que até mesmo eu, que nasci mais de 20 anos depois, sei de cor. A propaganda de flanelas, lãs e cobertores se tornou um clássico da publicidade brasileira.

Jingle das Casas Pernambucanas faz parte da memória cultural do Brasil — Vídeo: Reprodução YouTube

O impacto foi tão duradouro que quase 60 anos depois, em 2019, a marca fez uma versão atualizada do jingle, renovando também a animação que acompanha a música.

Pipoca na panela 

Se, assim como eu, você passou os anos 90 ligado na programação da TV aberta (ah, a vida pré-internet…), você se lembra do impacto dos jingles do Guaraná Antarctica, lançados em 1991. Escritos por César Brunetti, faziam parte de uma campanha que apostava na combinação Pipoca + Guaraná e Pizza + Guaraná, e grudou no cérebro de uma geração.

Jingle do Guaraná Antarctica fez história na voz de Lucinha Lins  — Vídeo: Reprodução YouTube

(César Brunetti, aliás, também escreveu outra letra memorável na publicidade: a da campanha Mamíferos Parmalat.)

Exemplos que não cabem num post

A propaganda brasileira é um mar de criatividade. Então não é de se surpreender que na pesquisa para este post eu tenha (re)encontrado uma infinidade de jingles que marcaram minha infância e adolescência. Talvez você também tenha usado Kolynos Star Gel (“é tão bom, é delicioso”), tenha pedido para sua mãe comprar Cremutcho (“gostinho de queijo cremoso, sabor nham, nham, nham”) ou usado Mack Color (“a etiqueta que cola até no tubo de cola, no vidro do carro e na parede da escola”).

Você pode não lembrar que o HSBC comprou o Banco Bamerindus, mas você certamente sabe que “o tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa”. E, é claro, lembra todo início de ano que “hoje, é um novo dia, de um novo tempo, que começou”.

Não tenho dúvida que enquanto você viajava no tempo com esses jingles você foi lembrando de vários outros que estavam aí escondidos na sua memória. Esse é o poder do jingle publicitário, um poder que talvez nenhuma outra ferramenta de comunicação tenha: o de manter a informação na sua mente por décadas.

Jingles publicitários do novo século 

Os exemplos acima podem dar a impressão de que os jingles já viveram sua época de ouro e agora são coisa do passado. Ledo engano. Está certo que na década de 1990 a competição pela atenção do espectador era bem menos acirrada e que, hoje, prender a atenção do público é uma tarefa custosa, em muitos sentidos.

Dito isso, o século XXI também está cheio de exemplos de jingles que, mesmo em um campo de batalha de conteúdo audiovisual, conseguiram se fixar à memória dos brasileiros.

Em 2010, a Fiat se apropriou de uma canção infantil — “uni, duni, tê” — e trocou apenas uma letra para criar um jingle memorável para o lançamento do novo Uno.

No ano seguinte, foi a vez de outra marca de automóveis buscar inspiração no universo infantil para sua campanha: a Nissan. Com uma proposta ousada, a marca criou um jingle pegajoso para alfinetar os concorrentes da sua picape Frontier. Se você não conhece os Pôneis Malditos, aqui vai um aviso: ao clicar no link a seguir, este jingle não vai sair da sua cabeça. Esta, inclusive, era a “maldição” lançada junto ao vídeo da campanha na internet: “É o seguinte, se você não passar esse vídeo agora para dez pessoas, você vai sofrer a maldição do pônei: você vai ficar o resto da vida com essa música na cabeça”. Parece que muita gente não encaminhou o vídeo…

E falando em músicas que grudam na cabeça, não dá pra deixar de citar outro guaraná, o Guaraná Dolly, que marcou uma geração usando pouquíssimas palavras.

Jingles publicitários como teaser

Um universo que tem estado presente nos jingles mais recentemente é o universo das produções audiovisuais.

Em 2025, o Kwai, em parceria com a Bring, criou o jingle “O Lado B do BBB“,  em que Rafael Portugal apresentava de forma irreverente o aplicativo de vídeos curtos, onde o público podia encontrar conteúdos despojados referentes ao BBB25.

No mesmo ano, a Netflix fez duas collabs para divulgar suas séries, usando jingles publicitários de forma muito inteligente.

A primeira, com o Guaraná Antarctica, se apoiou naquele comercial de mais de 30 anos atrás para o lançamento da segunda temporada da série Wandinha. A collab reviveu o clássico “Pipoca e Guaraná” com uma versão bastante contextualizada: Horror é pipoca sem Guaraná. 

Pouco depois, uma collab inusitada se deu entre a Netflix, o Ministério da Educação e o Inep. Aproveitando o hype de Stranger Things, a gigante do audiovisual trouxe Manu Gavassi para divulgar o lançamento da última temporada da série e… informações sobre o ENEM! Foi uma jogada genial, que atingia em cheio o público-alvo — tanto da série, quanto da cantora, quanto da prova.

“Um Estranho Jingle do ENEM” dá dicas para a prova usando o hype de Stranger Things — Vídeo: Reprodução YouTube

Talento além do tempo 

Se alguns jingles atravessaram décadas não foi por acaso, nem apenas porque “naquela época tudo marcava mais”. Eles são resultado direto de competência criativa, domínio musical e leitura precisa do contexto. Isto é, seja pelas mãos de compositores consagrados ou publicitários talentosos, os jingles sempre foram terreno de gente que entende de comunicação no sentido mais amplo.

Em um cenário fragmentado, barulhento e competitivo como o atual, o jingle continua sendo uma ferramenta potente justamente por exigir excelência. Quando bem executado, ele não só vende um produto ou reforça uma marca, como se instala de mala e cuia na nossa memória. E enquanto houver profissionais capazes de unir estratégia, criatividade e sensibilidade musical, os jingles seguirão fazendo exatamente aquilo para que foram criados: ficar.

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